19 outubro 2013

Um cronista intemporal

Manuel António Pina, premiado em 2011 com o prémio Camões, galardão maior dos escritores de língua portuguesa, foi um daqueles grandes escritores-jornalistas existentes em Portugal. O escritor Baptista Bastos, ele mesmo um jornalista, a respeito do recentemente falecido Urbano Tavares Rodrigues afirmou que este foi um bom escritor porque foi um bom jornalista e vice-versa. O mesmo se aplica a António Pina.
Ao comemorar-se o primeiro aniversário do falecimento do Poeta (Sabugal, 18 de novembro de 1943 - Porto, 19 de outubro de 2012), tenho a veleidade como professor de escrever algumas linhas de opinião. Não conhecendo em pormenor o homem e a obra acompanhei, por gosto e durante muitos anos, o que ele ia escrevendo. Relembro com saudade as crónicas do jornalista jubilado na última página do Jornal de Notícias. Eu diria que só as suas crónicas valiam o preço pago pelo jornal. Eram umas vezes ácidas, muitas vezes irónicas, mas sempre lúcidas e recheadas de humor. Esquadrinhavam o nosso quotidiano de forma a devolver-nos em raciocínio crítico fenómenos sociais que nos tinham passado relativamente desapercebidos. Eram palavras que sentíamos como nossas. Grande parte delas, felizmente, já foram editadas em livro. Um deles, chama-se, irreverentemente, “O anacronista”.
 Li também alguma da sua poesia, de que gostei bastante. E quanto aos seus livros para a infância, eram das minhas prendas favoritas pois achava-os oferta valiosa. Como alguém disse, os bons livros para crianças são também bons livros para adultos. Acho que Pina era um bom exemplo dessa afirmação.
Como homem, sempre me pareceu uma daquelas personalidades fortes, independentes, lúcidas e progressistas. Ser jornalista como profissão principal da sua vida foi provavelmente um projecto em que essas quatro qualidades constituíram património importante. Há que dizer que o tipo de jornalismo de António Pina é cada vez uma maior raridade, sufocado que é pela voz dos donos dos jornais e dos poderes económicos.
Manuel António Pina deixou-nos corporalmente há um ano, mas permanece fisicamente e espiritualmente. Os seus livros, grafos e desenhos (as ilustrações de companheiros que o acompanharam nos livros) no papel, são matéria que incorpora o seu espírito, a sua inteligência e criatividade. Um ano depois sei que há quem já tenha avançado com algumas iniciativas, tais como livros, para lembrar o homem e o autor.
 Há que aproveitar dele o que nos deixou e o exemplo de um homem, um jornalista, um poeta e um escritor que elevou essas formas de ser a cumes elevados. Leiamos a sua obra. Admiremos o homem que a fez.
Henrique Santos




O pássaro da cabeça

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.




Nenhum comentário: