Um cronista intemporal
Manuel António Pina, premiado em 2011 com o prémio Camões, galardão maior dos escritores de língua portuguesa, foi um daqueles grandes escritores-jornalistas existentes em Portugal. O escritor Baptista Bastos, ele mesmo um jornalista, a respeito do recentemente falecido Urbano Tavares Rodrigues afirmou que este foi um bom escritor porque foi um bom jornalista e vice-versa. O mesmo se aplica a António Pina.
Como homem, sempre me pareceu uma
daquelas personalidades fortes, independentes, lúcidas e progressistas. Ser jornalista como
profissão principal da sua vida foi provavelmente um projecto em que essas quatro qualidades constituíram património importante. Há que dizer que o tipo de jornalismo de António Pina é cada vez uma maior raridade, sufocado que é pela voz dos donos dos jornais e dos poderes económicos.
Manuel António Pina deixou-nos
corporalmente há um ano, mas permanece fisicamente e espiritualmente. Os seus
livros, grafos e desenhos (as ilustrações de companheiros que o acompanharam
nos livros) no papel, são matéria que incorpora o seu espírito, a sua
inteligência e criatividade. Um ano depois sei que há quem já tenha avançado
com algumas iniciativas, tais como livros, para lembrar o homem e o autor.
Há que aproveitar dele o que nos deixou e o
exemplo de um homem, um jornalista, um poeta e um escritor que elevou essas
formas de ser a cumes elevados. Leiamos a sua obra. Admiremos o homem que a
fez.
Henrique Santos
O pássaro da cabeça
Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça
Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não
Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada
E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão
e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.


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